Desenvolvimento dos de cima versus lutas dos de baixo

Reflexões sobre o evento eleitoral no Recife em 2012 

“Eleger um senhor, ou muitos senhores, seja por longo ou curto prazo, significa entregar a outra pessoa a própria liberdade. (…) Votar significa formar traidores, fomentar o pior tipo de deslealdade. (…) Hoje seu candidato se curva à sua presença; amanhã ele o esnoba. Aquele que vivia pedindo votos transforma-se em seu senhor. Como pode um trabalhador, que você colocou na classe dirigente, ser o mesmo que era antes já que agora ele fala de igual para igual com os opressores? Repare na subserviência tão evidente em cada um deles depois que visitam um importante industrial, ou mesmo o Rei em sua ante-sala na corte! A atmosfera do governo não é de harmonia, mas de corrupção. Se um de nós for enviado para um lugar tão sujo, não será surpreendente regressarmos em condições deploráveis.”

Élisée Reclus, “Votar é abdicar!” (Carta a Jean Grave, 1885).

 

A política se faz no dia a dia da luta, não nas urnas. Por isso, pensar sobre as eleições nos leva a analisar o que acontece nos quatro anos que intercalam uma e outra ida aos locais de votação. É este caminho de desmandos dos governos que leva ao massacre cotidiano do povo. O resultado dos votos apenas indica qual será o próximo engravatado a cumprir o papel de opressor, a ocupar a estrutura do Estado para implementar o governo de poucos sobre muitos.

Discutir o pleito eleitoral em Recife, portanto, trata-se primeiramente de resgatar como o povo da cidade resistiu à opressão dos governantes e, a partir daí, perceber como o propagado desenvolvimento do Estado de Pernambuco e o processo de crescimento da Região Metropolitana do Recife apenas contentam os empresários e não pretendem atender aos anseios populares.

Ora, a correlação de forças do topo importa muito mais a quem quer estar nele. Debater a disputa de legendas significa acreditar que votar em um candidato vai de alguma forma beneficiar o povo. Para além da ficção eleitoral, a política feita nas lutas prova que não.

 

Luta pela moradia versus Verticalização

No início do ano a comunidade do Bom Jesus, na Zona Sul, foi cruelmente expulsa em nome da construção da Via Mangue, obra que “solucionaria” o problema dos engarrafamentos na região mais motorizada da cidade. Sob a bagatela de R$5000 de indenização para o pagamento de um novo imóvel(!), a polícia foi acionada para empurrar, como sempre, os moradores ou para as margens da cidade ou simplesmente para um conjunto habitacional com feições de campo de concentração qualquer. Famílias inteiras e trabalhadores de todo tipo iam simplesmente ser desapropriados em nome do escoamento da produção da indústria automobilística – vide o polo automotivo ligado à Fiat que irá se instalar sob a guarda do governo do estado. Em bom português, automóveis e estradas demonstram em mais este caso ter maior relevância para o Estado que a vida de cidadãos e moradores pobres. A comunidade resistiu: ocupou a câmara dos vereadores e, logo após, a prefeitura e exigiu manter-se no espaço.

O fato ora descrito parece ir contra a grande oferta de moradias na cidade. Quem anda pelo Recife percebe a proliferação de obras em diversos bairros. A especulação imobiliária atinge níveis homéricos, resultado da demanda por moradias gerada pela chegada de indústrias e pelo polo de Suape. As construtoras aceleram o ritmo de entrega dos apartamentos e Recife se transforma cada vez mais em uma cidade vertical. É o progresso capitalista batendo incomodamente às nossas portas. E, como se espera, prejudicando o povo.

Nenhuma destas unidades habitacionais supre a demanda popular por moradia. Pelo contrário.  Produzidas para uma classe média migrante, os milhares de apartamentos serão vendidos a juros altos embutidos nas prestações dos financiamentos bancários ou alugados a preços cada dia mais caros.

Não à toa, as mesmas empresas que lucram com a especulação imobiliária da Região Metropolitana são beneficiadas nos processos licitatórios para as “grandes obras” pré-Copa, a exemplo da Queiroz Galvão, responsável pela famigerada Via Mangue. Os grandes eventos que se aproximam estão acelerando a expulsão de comunidades pobres como o Bom Jesus graças à execução de obras que adequam a cidade para a recepção de um grande volume de turistas em 2013 e 2014.

O “progresso” e o “crescimento econômico” se constroem sobre a destruição das iniciativas dos oprimidos e explorados, que resistem e lutam para manter o que já conquistaram.

 

“Limpeza” da cidade: fora camelôs!

O tradicional comércio de rua da cidade está ameaçado. Pelo menos desde 2011 os vendedores estão sendo coagidos a parar de trabalhar. Primeiro, na região central: a prefeitura (ligada ao PT) orientou a Dircon, órgão responsável pela fiscalização, a retirar os trabalhadores da região da rua Sete de Setembro e rua do Hospício. Quem vendia lanches próximo das escolas públicas, se dizia, também estaria ameaçado.

Os trabalhadores protestaram, se organizaram e ocuparam as ruas e a Câmara Municipal da cidade. Com isso, parte dos trabalhadores do Centro conseguiu permanecer, mas durante meses, trabalhadores removidos da Sete de Setembro ficaram sem local de trabalho, à espera do Camelódromo prometido pela prefeitura e do auxílio-desemprego.

No meio do ano passado foi a vez dos barraqueiros da Zona Oeste. As históricas barraquinhas de lanche construídas ao redor da Universidade Federal de Pernambuco foram ameaçadas de remoção. As primeiras a serem ameaçadas foram as barracas localizadas à frente do Hospital das Clínicas, logo despejadas em uma operação quase cinematográfica de tão grande e truculenta. As cerca de 20 barracas, de pessoas que estavam trabalhando lá há quase 20 anos foram surpreendidas com uma força estatal digna de guerra: Dircon, CTTU, Polícia Militar e Batalhão de Choque, além de um helicóptero. Todo este aparato cercou os trabalhadores, que fizeram uma corda humana para tentar impedir a demolição de sua fonte de sustento. De nada adiantou: a força repressora DERRUBOU as barracas. A única garantia que tiveram foi a de não poderem mais trabalhar naquele local.

A luta dos barraqueiros continua na tentativa de garantir direitos mínimos, o que se traduz em impedir que todos os demais sejam removidos. Com a organização deles, as expulsões na região da Universidade foram suspensas e estão sendo negociadas. Mas as remoções continuam em outros lugares.

Agora é a Zona Norte o foco das ações de “limpeza”. A região de Casa Amarela, com um dos maiores mercados do Recife, contava com uma grande concentração de comerciantes nas ruas e calçadas próximas ao camelódromo oficial. A história se repete: polícia acionada, trabalhadores sendo assediados e impedidos de trabalhar por fiscais da Dircon, criminalização do povo. A desculpa usada para a remoção é de um primor à toda prova: o comércio de rua “atrapalhava o trânsito”(!)… Para além da conversa pra boi dormir, os reais interesses por detrás são abafados, a saber, a concorrência com os comerciantes lojistas, representados pela CDL-Recife (Câmara dos Dirigentes Lojistas do Recife), além, é claro, da onipresente Copa do Mundo…

 

Mobilidade?

Se locomover em Recife está ficando cada dia mais difícil: todo o mês de janeiro, às vésperas do carnaval e em época de férias, aumenta o preço da passagem de ônibus. Neste ano não foi diferente. Mais 15 centavos na tarifa. Em reação ao aumento abusivo, novamente se organizaram protestos para exigir a revogação da medida e denunciar o caráter privado do transporte coletivo na região metropolitana do Recife.

Neste ano, contudo, os manifestantes sofreram uma repressão desmedida. O governo do estado e a prefeitura provaram que são capazes de permitir atrocidades para rezar pela cartilha dos empresários do transporte – um punhado de cinco famílias que controlam toda a frota. No primeiro dia de protestos, a polícia jogou bombas de gás lacrimogênio dentro da Faculdade de Direito, ligada à Universidade Federal de Pernambuco, onde, em tese, não poderiam agir. Já no dia seguinte, a polícia exercitou o que sabe fazer melhor – atirar tanto bombas quanto balas de borracha e dar porrada – sobre um pequeno grupo de manifestantes desarmadosque chegaram a se ajoelhar perante suas investidas, em tom pacífico. Um estudante foi exemplarmente agredido com um soco que lhe arrebentou o nariz. O batalhão atacava a todos, sem distinção.

Tantos foram os desmandos que até mesmo a imprensa, rotineira inimiga de protestos e manifestações, pronunciou-se contra o que acontecia nas ruas. O governo não teve outra saída senão recuar. Mas o estrago já havia sido feito e milhares de pessoas passaram a apoiar presencialmente os atos gritando em uníssono palavras de ordem contra o governo do estado na figura de Eduardo Campos, que além de xingado, passou, ali, a ser chamado de “ditador”. Uma das primeiras manifestações históricas de massa contra um governante que as pesquisas vulgarmente apontam como tendo mais de 80% de aprovação…

Entretanto, o aumento se manteve e, no frigir dos ovos, manifestantes e população em geral saíram prejudicados. Alguns dos que participaram dos protestos carregam até hoje as marcas das balas de borracha no corpo e a população continua obrigada a, todos os dias, enfrentar o drama de conseguir apenas sentar nos ônibus e/ou continuar a espera homérica de 30 ou 40 minutos nas filas das integrações. E, para coroar, pagando uma das passagens mais caras do Brasil.

Já quem tenta não ficar sob a dependência dos ônibus ou do metrô usando a bicicleta como transporte alternativo, não paga a tarifa, mas sofre com as ruas cheias de carro e sem nenhuma adequação para o livre trânsito sobre duas rodas. E quando a prefeitura da cidade de alguma maneira beneficia quem vai e volta do trabalho pedalando, logo volta atrás em nome da melhor circulação de carros.

Pouco antes das eleições, a CTTU (órgão municipal que cuida da ordenação do transporte) implantou uma ciclofaixa nas principais avenidas da Zona Norte. Obviamente, com a retirada de uma faixa de carros para o uso das bicicletas, deixando o restante para ônibus, automóvel, táxis, etc, o trânsito já caótico da região piorou. Rapidamente os burgueses moradores das redondezas protestaram contra as mudanças no trânsito que, indiretamente, eram causadas pela ciclofaixa e diretamente eram motivadas pelo privilégio ainda dado ao transporte privado. Pouco tempo depois, a prefeitura retirou parte da ciclofaixa que afetava os bairros de classe alta da área. Em protesto, ciclistas pintaram uma ciclofaixa na avenida Rosa e Silva, mas a ciclofaixa oficial continua apagada.

Duas vezes o povo pobre foi prejudicado: o aumento das passagens onera ainda mais nossos bolsos, pois agora se gasta, no mínimo, R$4,30 por dia para ir ao trabalho e voltar pra casa. Já a retirada da ciclofaixa mantém a insegurança no trajeto cotidiano dos ciclistas, muitos deles simples trabalhadores que usam o modal como meio de transporte.

No frigir dos ovos, a prioridade do governo e empresários claramente é a locomoção individual e motorizada. Com uma fábrica da FIAT, como já dito, em Pernambuco e parcelamentos cada vez mais baratos para carros e motos, o trânsito de Recife não flui e vivemos com o fantasma das obras solucionadoras do “problema do tráfego”. Surgem as propostas de grandes obras para “melhorar” o caos urbano, a exemplo dos 10 viadutos que se pretendia construir sobre a avenida Agamenon Magalhães. Elefantes brancos criados para mascarar a raiz do problema: o sucateamento do transporte coletivo e a inconsequente insegurança dos ciclistas estimulam o aumento exponencial da frota de carros e motos na cidade. Ganham as indústrias petroleira e automobilística. Novamente perde o povo.

 

A farsa dos de cima e a necessidade da organização desde baixo

Durante todos os dias do ano, reclamamos dos absurdos ora citados e lembramos o quanto estas elites nos exploram. Mas em época de eleição parece até que estas figuras, as quais em silêncio nos massacram cotidianamente, podem mudar algo. A nossa raiva muitas vezes se direciona a um político e votar em outro parece solução. Falso. As opressões que sofremos todo dia não aparecem na propaganda. O candidato que hoje pede voto somente irá continuar reprimindo quem luta para beneficiar quem lucra.

A partir das lutas populares, fica claro que a tríade indústrias, construtoras e Copa do Mundo é a verdadeira base do projeto dos governos e empresários para a cidade. É devido aos falsos representantes e suas políticas de fomento da economia que o povo sofre cotidianamente com expulsões, falta de moradia e dificuldade de locomoção. Eles criam o mal com o qual prometem acabar. E não importa a legenda.

Vale comentar que nestas eleições a maior disputa estava entre projetos que se colocariam no campo da esquerda. Um, do Partido dos Trabalhadores (PT), o outro, do Partido Socialista Brasileiro (PSB). O PT buscava manter a administração do Recife e o PSB conquistá-la, tendo como principal trunfo a figura do Governador Eduardo Campos como cabo eleitoral.

O PT, que para muitos deixou uma boa herança para a cidade com a administração da década de 2000, é o mesmo PT que levou à frente as obras da Via Mangue, expulsou os moradores das palafitas de Brasília Teimosa e está levando à frente a privatização da área de galpões no Recife Antigo. Já o PSB é o partido do neto de Miguel Arraes, o qual faz questão de usar o parentesco para garantir uma fatia de poder para membros da família.  Nepotismo descarado: a mãe, Ana Arraes, figura como presidente do Tribunal de Contas do Estado, governado por seu filho. Sem contar a absurda repressão aos protestos contra o aumento das passagens deste ano, a privatização paulatina da saúde, através dos convênios escusos com o IMIP, e o sucateamento da educação pública, com a retirada do ‘Plano de Cargos e Carreiras’ dos professores além de altos investimentos numa falsa inclusão digital, com a entrega de tablets para docentes e alunos, que pouca melhora traz à qualidade do ensino.

Maravilhas das gestões “populares” que nunca aparecem no guia eleitoral. Ao fim de tudo, foi a chamada direita que saiu ganhando no pleito. O PSDB, com um candidato egresso do Partido Verde (PV), conseguiu o segundo lugar na disputa e desbancou o Partido dos Trabalhadores. Em primeiro, ficou o candidato do PSB, Geraldo Júlio, figura até então desconhecida da população, agora representante do governador do Estado na prefeitura e futuro executor dos projetos do partido para a cidade – um “laranja político”. Em último lugar ficou o povo, espectador cuja única garantia é a continuidade das obras milionárias de destruição da cidade e, deste modo, da qualidade de vida.

Assim, a disputa de cinema das propagandas serve para mascarar as reais práticas dos políticos e partidos. Práticas reproduzidas por eles nos movimentos sociais, os quais constantemente tentam aparelhar para impedir a queda de suas máscaras. Na realidade, os partidos são o câncer dos movimentos, aqueles que se inserem nos espaços para garantir a estabilidade dos atuais governos autoproclamados de esquerda ou para projetar novos. Vejamos. Sindicatos domesticados e burocratizados servem como correia de transmissão dos interesses de centrais pouco ou nada combativas, não raro submissas à situação (“Não podemos manchar a imagem do governo”), enquanto a categoria sofre, às moscas, com os mais diversos ataques. Conselhos e associações de moradores que muitas vezes empreendem políticas assistencialistas tão-somente – a exemplo da política de distribuição de leite nas comunidades (‘Leite para todos’) – são carcomidas por candidaturas intestinas ou mesmo empregos em cargos comissionados concedidos pelos que estão no poder, enfraquecendo com isto o horizonte de luta. Movimentos estudantis que na verdade servem em muitos casos como palanques e escola para futuros políticos profissionais de alta cúpula. Nos holofotes do sufrágio, partidos  se capitalizam, enquanto mais e mais à sombra ficam os movimentos sobre os quais se projetaram e ainda se projetam.

Em suma, temos duas batalhas a travar: enfrentar governos e patrões e, ao mesmo tempo, construir dentro dos movimentos autonomia frente aos partidos políticos. Não existe salvador da pátria nem partido “menos ruim”: quem está em cima automaticamente oprime os de baixo. E, para que as ações estejam sempre pautadas nos anseios coletivos, não podemos permitir a atuação aparelhista e de vanguarda dentro dos movimentos. Apenas a construção independente e horizontal das mobilizações pode impedir a projeção de lideranças cristalizadas e a subordinação das pautas às vontades de poucos.

Ao relembrarmos as lutas populares, fica claro para nós as represálias com as quais sempre sofremos, seja qual for o governo. Evidente: para se manter no topo do poder estatal nesta falsa democracia é necessária aliança com o empresariado, classe que lucra com a exploração diária da maioria. E quem se junta com opressor, opressor se torna.

Por isso, não devemos depender de políticos profissionais ou de partidos: eles usurpam o nosso poder para nos submeter. Nós de baixo, nas bases da pirâmide social, devemos tomar a responsabilidade nas mãos e pensar, a partir de onde nossos pés pisam, como lutaremos juntos para acabar com a ditadura velada destes setores. Significa que não devemos ficar parados assistindo os de cima tirarem nossos direitos e usarem nossos recursos contra nós. O poder está em nossa organização coletiva, e não na prefeitura ou na presidência, ilusão criada para que nos continuem dominando.

A eleição é um evento de encenação, no qual a classe gerenciadora da política finge estar ao lado do povo para, depois de passado o pleito, destruir comunidades inteiras com os tratores do progresso e reprimir quem protesta com os “cacetetes democráticos”, como diria um companheiro de luta. Passada a consulta nas urnas, que como resultado trouxe o alinhamento entre governo do estado e prefeitura, sente-se os ventos da repressão a caminho, junto com o barulho das obras das construtoras. É tarefa do povo organizado combater autonomamente este processo e, aos poucos, deixar às vistas de todos esta ditadura velada. Só a nossa resistência pode parar as máquinas, pois na prática a nossa política, a política dos de baixo, é sempre ‘tratorada’ pelas urnas.

 

Coletivo Anarquista Núcleo Negro

Outubro 2012

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *