Manifesto de Fundação

COLETIVO ANARQUISTA NÚCLEO NEGRO

ANARQUISMO ORGANIZADO EM PERNAMBUCO, FERRAMENTA NA LUTA DOS EXPLORADOS E OPRIMIDOS.

O COMEÇO DE UM FIM, OU O FINAL DO QUAL NOS ORIGINAMOS

Um matemático, um químico, um psicólogo, um sociólogo podem afirmar que não têm programa, ou que seu único programa é a procura da verdade; eles querem conhecer, e não agir. Entretanto o anarquismo e o socialismo não são ciências: são objetivos, projetos que os anarquistas e os socialistas querem pôr em prática e que têm necessidade de ser formulados em programas bem determinados.
[Errico Malatesta, “Anarquismo e Organização”]

Nossas origens remontam ao “Coletivo Autonomia”, que tinha como norte a atuação em ocupações urbanas, a partir de 2008. Não havia uma identidade capaz de traduzir o que éramos, e dessa forma permanecemos por cerca de 2 anos.
Ali, havia interesses diversos. Não sabíamos muito bem o que e como queríamos desenvolver o trabalho social. Assim, aquilo que era proposto por um não era desejado pelo outro. “Discutirmos ostensivamente para após isso empreendermos uma ação”, queriam uns, “Irmos para ação e com a leitura da realidade sabermos quem somos”, era a proposta de outros, “Se as negociações com os órgãos do governo podem ser eficazes, então o movimento deve procurá-los de partida(…)”, diziam alguns, “A auto- organização e independência de classe dos oprimidos se conquista na luta e não pedindo a estes órgãos”, falavam outros.

Para uns éramos “um coletivo político organizado”, para outros “um agrupamento de tendência”, “Que atua em ocupações urbanas”, complementavam alguns, “Não: deveríamos ampliar o leque e atuar em outros espaços”, “Mas qual nossa ideologia?”, “Somos libertários”, “Isso significa dizer anarquismo, marxismo?…”. As discussões não andavam e lutas não havia.

As divergências teóricas e os tímidos resultados práticos das ações foram aos poucos desgastando o coletivo. Assim, os integrantes, de quando em quando, iam se afastando.

Alguns se juntaram a outros coletivos, outros continuam ainda hoje dando apoio à distância. O Autonomia ia dando sinais de morte. Os poucos restantes, a partir dacrítica e autocrítica, pensaram em como fazer na prática para não deixar que se perdesse, de um todo, os embriões de trabalho social desenvolvidos ao longo dos dois anos de grupo.

O caminho mais próximo e já apontado nos debates internos do Autonomia era a aproximação com o método Especifista de organização e trabalho social. Pela experiência, percebemos a necessidade de uma instância política para que se fermentasse a atuação, uma separação complementar entre o espaço da prática social e o espaço que privilegiasse a pauta ideológica.

O coletivo Autonomia foi um passo importante para nossa formação e início de um campo autônomo de lutas na cidade. No entanto, não podemos discutir e estimular o crescimento do Anarquismo no mesmo espaço de organização das lutas sociais, sob o risco de incorrermos na confusão entre debate ideológico e militância social em um mesmo espaço dificultando o desenvolvimento eficaz de um grupo e conduzindo-o ao engessamento.

Sentíamos que precisávamos refletir e acumular os resultados das mobilizações políticas em Recife e Pernambuco e construir um referencial de militância anarquista organizada.

A NECESSIDADE DE ORGANIZAÇÃO

Nossos inimigos, a burguesia e o Estado, encontram-se sempre preparados para combater qualquer sinal de sublevação; diante de tais inimigos, devemos estar igualmente preparados e atentos. Dessa forma, o papel da organização revolucionária, nesse sentido, assim como em seu combate à simples improvisação, é fundamental.
[Antônio Gutierrez Danton, “Problemas e Possibilidades do Anarquismo”]

Então, como equalizar as duas variáveis [teoria e prática]? Sentíamos a falta e a importância da prática, motivo último de qualquer organização e forjadora do caráter de qualquer militante interessado e comprometido. Com ela é que a teoria cria seu nexo e não o contrário. No entanto, a prática por si só não basta. É preciso constantemente analisar a conjuntura, refletir sobre os exemplos históricos, sobre os nossos princípios e como eles podem fazer sentido frente à realidade. A estratégia do Anarquismo Organizado Latino-americano, influenciado pela Federação Anarquista Uruguaia – FAU, nos traz elementos que resolvem muito bem os problemas enfrentados ao longo de nossa história.

Ora, Anarquismo é ideologia, entendida como o conjunto de nossas aspirações. Estas aspirações, desejos, motivações, precisam ser traduzidas e expressas com base em:

a)O que queremos a longo prazo;
b)Como vemos a realidade;
c)Quais as possibilidades de incidirmos sobre a realidade a ponto de transformá-la.

Este planejamento não é possível no seio dos movimentos sociais. Um movimento de luta por moradia, por exemplo, não está preocupado em pensar uma sociedade libertária, e sim em elaborar estratégias para solucionar o problema do teto. E muitas das discussões dentro destes e outros movimentos são conjunturais, sobre situações momentâneas.

Contudo, se somos anarquistas temos um modelo de sociedade em nossas mentes e
corações. Não podemos agir sem um objetivo final claro, sermos levados pela prática que não ajuda na construção de um projeto político consistente, apesar de levar a conquistas pontuais. Queremos o fim da sociedade de classes, levado à frente pelo povo organizado. Por isso, precisamos nos organizar enquanto anarquistas para estimular estes ideais nas lutas populares que integramos. Sem esta organização, as ideias anarquistas não tomam forma e o movimento popular corre o risco de perder-se nas lutas pontuais, sem utilizar suas forças para acabar com a estrutura centralizada que gera opressão.

O modelo do anarquismo organizado propõe dividir o trabalho em 3 esferas:

– Política: representada pela organização específica anarquista (daí decorre o termo especifismo)
– Político-social: ligação entre o trabalho da organização política anarquista e o movimento social
– Social: representada pelas frentes nas quais os sujeitos atuam.

O papel da organização política, neste contexto, é o de refletir sobre as lutas, produzir teoria, e fortalecer no seio dos movimentos um pólo libertário de atuação. Não é do nosso interesse DIRIGIR os movimentos sociais, tomando decisões de cúpula e tangendo a base como rebanho e/ou levando-a pelo cabresto. Esta posição não só é problemática, como anti-ética. São nas instâncias de decisão do movimento, nas suas reuniões, assembleias e comissões, onde de fato as decisões devem ser tomadas.

Nosso objetivo é o de INFLUIR nestes espaços, indicando caminhos possíveis assim como aprofundando estes caminhos rumo à transformação radical da sociedade.

Dentro dos movimentos sociais, querelas ideológicas com outras correntes de filiação distinta não são apenas indesejáveis, como igualmente corrosivas e ineficazes, ao nosso ver. Pois o foco deve ser o de fortalecer as bases do movimento em que se tem
inserção e não o de atacar aqueles com os quais divergimos politicamente, sob o perigo de nos esquecermos do mais importante: a luta.

Além disso, é vontade nossa garantir que os movimentos sociais não enfraqueçam em sua busca por mais direitos e independência, se voltando para a luta e não para o interesse exclusivo de outros atores que acaso queiram controlá-lo, quando não domesticá-lo. Fica, portanto, estabelecido uma espécie de simbiose: o movimento ganha, pois a organização política mantém um fluxo de militantes constantemente apoiando as lutas sem torná-las um espelho da ideologia por ela defendida, e a organização política ganha, pois a atuação cotidiana nos movimentos garante a propagação de seus princípios, uma demonstração da ideologia anarquista através da prática.

A urgência de otimizarmos e aprimorarmos nossa prática política nos apontava a necessidade de nos organizarmos e, como já dito, a historia do anarquismo organizado na América Latina e no Brasil, com base no especifismo, testemunha uma via concreta e forte, à qual decidimos nos somar.
O COLETIVO ANARQUISTA NÚCLEO NEGRO

Somos uma Organização Política Anarquista, Específica e de intenção revolucionária. O que significa, em linhas gerais, que há uma concepção comum entre aqueles que a compõem no tocante a linha teórica, tática e política e que seu objetivo é a revolução social, configurando o que queremos a longo prazo.

O papel da organização política, é o de “assegurar o conjunto de recursos técnicos, materiais, políticos e teóricos” (FAU) necessários para a definição de uma estratégia de ruptura com a sociedade capitalista e com o Estado. Pelo nosso enraizamento nas massas, por sermos parte dela, pretendemos contribuir para disseminar a proposta de contra poder, no nosso caso, do poder e organização popular.

Canalizar as revoltas do povo, do qual somos parte e não alheios, é o fundamento de nossa existência. Posto que a revolta por si só não garante a reorganização das relações de poder nem, consequentemente, do cenário no qual ela se insere. Uma transformação social em qualquer contexto histórico e hoje, mais que nunca, implica no desenvolvimento de “meios técnicos”. Anteciparmo-nos no esforço de desenvolvê-los é um de nossos deveres.

Reforçamos que estamos diluídos nas massas, somos parte delas, somos povo e outro jeito não há de empreendermos qualquer luta implicada na transformação radical das estruturas sociais, que não seja junto a elas. Exercemos uma “função demonstrativa”, na medida em que, guiados pela ideologia, nos organizamos para influenciar a partir das nossas motivações, ideias, aspirações e valores, mostrando a viabilidade de nossas crenças e teorias.

Inspirados por todas essas convicções e impulsionados por outra experiência de militância entre os anos de 2008 e 201 0, hoje publicamente declaramos fundado o Coletivo Anarquista Núcleo Negro.

É tarefa do Anarquismo hoje deixar de ser uma planta exótica e tornar-se novamente uma ferramenta no seio dos oprimidos e explorados, onde nunca deveria ter deixado de estar. Assim como é tarefa deste coletivo trabalhar arduamente para que isto aconteça.

Convictos de que os de baixo vencerão, declaramos publicamente, fundado o Coletivo Anarquista Núcleo Negro.

Não está morto quem luta!
Recife, 04 de abril de 2012

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